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“O que aconteceria se, em vez de apenas construir nossa vida, nós nos entregássemos à loucura e à sabedoria de dançá-la?”

Roger Garaudy

 

Os Sete Poderes da Biodanza*

 

A Biodanza pode ser vista como uma prática capaz de actuar positivamente diante dos desafios e complexidades do estilo de vida do mundo contemporâneo. Sendo esta abordagem geradora de efeitos terapêuticos e pedagógicos, pretende não só recuperar níveis elevados de saúde como actuar de forma profilática, possibilitando aos seus participantes uma reeducação para um quotidiano que respeite as necessidades vitais básicas. Para isto é necessário que se tenha uma visão integrada, não dissociando o que é psicológico do que é corporal.

A Biodanza amplia esta noção e se autodefine como uma terapia para “enfermos da civilização” (Toro, 1991, p.135), isto quer dizer que o estilo com o qual se vive, pode ser patológico ou gerador de saúde e os tratamentos perdem sua eficácia se não se modifica o quotidiano.

 

Os poderes da Biodanza, considerados por Rolando Toro são os seguintes:

1. O PODER DA MÚSICA

2. O PODER DO MOVIMENTO INTEGRADO (DANÇA)

3. O PODER DA VIVÊNCIA

4. O PODER DO GRUPO

5. O PODER DA CARÍCIA

6. O PODER DO TRANSE E DA REGRESSÃO

7. O PODER DA EXPANSÃO DA CONSCIÊNCIA.

 

Porque é que  a Biodanza funciona e actua de forma integral nos seus praticantes?

 

1. O PODER DA MÚSICA

• A música encontra o seu antecedente mítico em Orfeu1 e permite gerar gestos integradores motivados pelas sensações, emoções, sentimentos e vivências;

• A música foi considerada como dotada de um poder excepcional capaz de gerar estados não passíveis de serem alcançados através de outros métodos;

• A música não nos chega por uma via cortical2. É no tálamo – região do cérebro onde se recebem os sinais sensoriais correspondentes às sensações e emoções – que somos tocados por ela num plano não-consciente; isto é, mediante um ritmo musical podemos condicionar uma resposta inconsciente automática;

• A música é capaz de promover a regulação do sistema nervoso autónomo através de músicas activadoras com ritmos euforizantes, resultando numa activação simpático-adrenérgica, que gera o aumento da pressão arterial, do batimento cardíaco, da vaso-constrição, do deslocamento do sangue para os músculos que vão entrar em acção, da broncodilatação para permitir uma ventilação maior – todas essas são reacções de emergência. Já as músicas suaves, com movimentos em câmara lenta, geram diminuição do ritmo cardíaco, aumento da secreção das glândulas lacrimais e salivares, fomento da acumulação de reservas, predisposição ao sono e ao repouso – todas essas sensações de plenitude e paz;

• A Biodanza permitiu a evolução de uma semântica musical3, onde os elementos orgânicos da música, denominada biomúsica4 - tais como: fluidez5, harmonia, ritmo, tónus, unidade de sentido6 - sejam preservados. Agregando elementos que resgatam na música um potente instrumento deflagrador de vivências7, emoções e sentimentos. “Nas primeiras batidas de uma música está, em certo sentido, o embrião de sua totalidade (...) um esquema de resposta afectivo-motor-expressivo, que determinará os movimentos sucessivos da dança; da coerência entre música e dança surge a vivência”. (Toro 2002, p.130)

 

2. O PODER DO MOVIMENTO INTEGRADO (DANÇA)

• Ao longo da sua história, a dança foi perdendo o seu sentido originário e transformou-se num objecto de apreciação estética na forma de um espectáculo, onde o dançarino e o público estão separados;

• Na sua forma originária a dança está vinculada aos rituais de fertilidade, à reverência aos deuses, à celebração, à magia , à religião, ao trabalho, à festas e à reiteração de laços sociais;

• Mais do que um espectáculo, a dança é o movimento interior que origina os actos vitais: o abraço, o acalento do bebé, as carícias e o beijo, o trabalho, os gestos abatidos de solidão e os gestos do encontro.

 

3. O PODER DA VIVÊNCIA

• A história da cultura ocidental tem -se caracterizado por um afastamento gradual e intenso do mundo vivido;

• Alguns filósofos e pensadores têm sido responsáveis por restituir ao mundo, à vida, ao corpo e à vivência a sua dimensão fundadora de todo o conhecimento;

• O conceito de vivência foi elaborado por Dilthey (1949) como: ...um modo característico distinto em que a realidade está aí para mim. A vivência não se me apresenta como algo representado; não é dada, a realidade vivência está aí para nós porque nos percebemos por dentro dela, por que a tenho de modo imediato como pertencente a mim em algum sentido.

• A vivência é uma experiência vivida com grande intensidade por um indivíduo num lapso de tempo aqui-agora (génese actual), abarcando as funções emocionais, cinestésicas e orgânicas. As vivências geram a sensação global de "sentir-se vivo", evocam a intensa percepção de ser quem se é. Como a experiência vivida com grande intensidade por um indivíduo no momento presente, que envolve a cinestesia, as funções viscerais e emocionais.

 

4. O PODER DO GRUPO

• Reunir-se em grupo com o objectivo de crescimento é por extensão uma confirmação desta tendência gregária8 em que, através da união e do compartilhamento, da atracção e repulsão, possibilita a cada participante enriquecer-se com a diversidade de estímulos afectivos próprios dessas dinâmicas;

• Em Biodanza, segundo Toro (2000): O grupo de Biodanza é um bio-gerador, um centro gerador de vida. A concentração de energia convergente dentro de um grupo produz um potencial maior que a soma de suas partes. Esta energia biológica renovadora compromete a unidade e a harmonia do organismo. É criado, assim, um campo magnético no qual se reflectem e se projectam emoções, desejos, sensações físicas de grande intensidade. Produz-se uma percepção mais essencial de outras pessoas, um modo de identificação novo;

• A afectividade ocupa lugar central na dinâmica do grupo de Biodanza, na forma de empatia, solidariedade e de um continente estruturado9, fundamental para que o indivíduo se sinta protegido e respeitado nas suas necessidades.

 

5. O PODER DA CARÍCIA

• As psicoterapias tiveram a sua trajectória marcada pelo confronto com o meio social. O meio académico continua refractário às abordagens chamadas ‘corporais’ e os códigos de psicologia mantêm-se em alerta quanto às abordagens de contacto em psicoterapia. Práticas sempre vistas como perigosas e ameaçadoras ao limite ético da acção psicológica;

• O efeito terapêutico do contacto tem sido evidenciado em pesquisas como as de Harlow onde foram feitas experiências com macacos Em Biodanza, avançamos do contacto10 em direcção à carícia11 – que envolve diversos níveis de sensibilidade, de compromisso corporal, de qualidade da presença. As carícias têm como efeito apaziguar as angústias, recuperar a auto-estima e dissolver tensões crónicas. Esta passagem é feita progressivamente, dada a quantidade de crenças negativas que se têm em relação ao contacto e, além disso, a nossa cultura não logrou perceber e fomentar o contacto como essencial para a saúde.

 

6. O PODER DO TRANSE E DA REGRESSÃO

Em Biodanza Transe significa: Trânsito no estado da consciência - profunda vivência de renovação; A regressão integrativa tem um efeito saudável e o seu efeito anti-stress é aceite cientificamente;

• O estilo de vida contemporâneo tem predomínio ergotrópico, caracterizado por hiper-estimulação perceptiva, excesso de actividades, poucas horas de sono e constante estado de alerta. Para compensar este desequilíbrio é necessário activar os mecanismos de reparação orgânica, renovação celular e descanso, denominado por Rolando Toro (2000) de estados regressivos;

• O estado de regressão é um retorno psico-fisiológico à etapa fetal ou perinatal, isto é, imediatamente anteriores ou posteriores ao nascimento. Durante o estado de regressão o indivíduo reedita condições psíquicas e biológicas da infância. A regressão pode ter um carácter renovador integrativo, de reparação e compensação psico-biológica. A regressão integrativa tem um efeito saudável.

 

7. O PODER DA EXPANSÃO DA CONSCIÊNCIA

• António Damásio (2000) quando afirma que: “O alicerce indispensável da consciência é a consciência central, mas a sua glória é a consciência ampliada.” Já ponta para esta dimensão. A consciência de estar vivo foi uma aquisição fundamental para a nossa espécie pois nos possibilitou criar o mundo da cultura, mas a consciência ampliada nos permite ir além, como define Toro (2000):

«O sentimento de íntima vinculação com a natureza e com o próximo é uma experiência culminante que se tem rara vez na vida. Experimentá-la uma só vez permite iniciar uma mudança na atitude frente a si mesmo e frente aos demais. O saber com “certeza” que não somos seres isolados, mas que participamos do movimento unificante do cosmos, basta para deslocar nossa escala de valores. Mas este saber com certeza não é um saber intelectual; é um saber mais comovedor e transcendente.»

* A possibilidade de alcançar um estado de consciência superior, em que cada um possa libertar-se dos hábitos mentais e emocionais que o torna “desligado”, é escassa para os homens desta civilização, acossados, aplainados pela estandardização, enfermos pela tensão que devem suportar, tiranizados pelo mecanicismo.

 

1 Mito grego que, tocando sua cítara, conseguia efeitos mágicos. VOLTAR

2 Relativo a córtex: região do cérebro responsável pelo pensamento, linguagem, movimento voluntário, julgamento e percepção. VOLTAR

3 Pesquisa voltada ao estudo dos significados emocionais contidos na música. VOLTAR

4 Música feita com base nos ritmos orgânicos. VOLTAR

5 Movimento contínuo que compromete todo o corpo. VOLTAR

6 Aqui se refere ao facto da música manter um sentido emocional único do início ao fim. VOLTAR

7 Experiências que envolvem os níveis somático e psíquico, sensações, emoções e sentimentos. O conceito será desenvolvido mais adiante no poder do método vivencial. VOLTAR

8 Relativa ao instinto gregário (de viver em grupo). VOLTAR

9 Manutenção de um vínculo contínuo. VOLTAR

10 União de dois ou mais sistemas para permitir o fluxo de informação. VOLTAR

11 Expressão de afecto através do contacto corporal e cuja condição essencial é um balanço entre o desejo de dá-la e o desejo de recebê-la. VOLTAR

 

* Resumo adaptado (António Sarpe, Director Pedagógico da Escola de Biodanza do Porto)

 

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